30 de dezembro de 2014

À nossa sorte, mulheres!





O problema que há em refutar demasiadamente uma teoria ou comportamento é atrair, mesmo sem o querer, excessiva atenção a ambos, corroborando involuntariamente em seu favor. Sim, é necessário denunciar o mau comportamento, o abuso; é urgente anunciar o absurdo; é útil desconstruir teorias moralistas travestidas de manuais para a ética humana.

Todavia, achacar todo e qualquer comportamento de um indivíduo e submetê-lo à acusação de machismo é, no mínimo, simplório. Veja bem, longe de querer dar guarida à situação de desigualdade com que vivem ainda hoje as mulheres, em todas as direções do mundo, mas o fato é que há comportamentos que demonstram o universo pródigo que é a natureza humana.

Somos eternos insatisfeitos. Seres dúbeis, duvidosos, inconstantes, sensuais e levianos. Somos o resultado de uma cruel demanda de absurdos naturais com uma sede insaciável por certezas, estas explicações solidárias que aplacam nossos medos e arrefecem nossas dúvidas. Jogados numa existência comum aos seres que convencionamos por abaixo de nós numa escala evolutiva imaginária, temos a virtude criativa que encerra igualmente a nossa penosa perdição.

Saudamos a nossa vulnerabilidade com o condão da inteligência. Sobreviver no mundo não é o suficiente; participar, tampouco. Ter consciência de si nos faz fortes, singulares, definíveis. Simultaneamente, acreditamos por bem definir os demais.

Forjar nossa natureza débil, tendo por instrumento o esmeril do raciocínio criativo, é a nossa salutar singularidade.

Voltemos, pois, à questão inicial, se todo e qualquer comportamento for considerado machista, então machista é a existência! Se assim pensarmos, se assim agirmos, mulheres, estaremos fadadas ao suplício de atirar socos no escuro. Um destino confuso esse de viver para apontar o dedo em riste, identificando condutas que deveriam ser abolidas antes pelo fato de serem toscas ou débeis ou impertinentes, que propriamente machistas. O discurso é também um suporte cômodo para quem quer esquivar-se de uma atitude.

Empunhemos o arbítrio e com ele realizemos a nossa própria sorte.




Um comentário:

CEREMYSTERIVM disse...

Também tenho refletido mais sobre esse tema, as forças masculinas e femininas e seus constantes conflitos em todos os níveis da existência.

E entre outras conclusões, a de que a cultura do "sexo frágil" é mais uma profunda e histérica ilusão coletiva criada para aprisionar nossas consciências em graves e antigos "dogmas sociais".

No mínimo, fragilidade é a mesma.

E refletindo mais profundamente, não é difícil, se assim quisermos, chegarmos à conclusão de que o homem pode ser mais forte externamente, fisicamente, mas a mulher, internamente, tem uma fortaleza que pouco se compara à do mundo interno masculino.

Um ser capaz de sustentar uma vida dentro do próprio corpo está é longe de ser frágil.

E acredito ainda que poucos homens são capazes de suportar dores físicas e emocionais como são capazes as mulheres.

O mundo masculino criou essa ilusão projetando a própria fragilidade no ser feminino: "A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu
comi!"

E enfim, indo mais além, é realmente mais provável que a fragilidade seja a mesma, já que reencarnamos tantas vezes oscilando entre o masculino e o feminino.

Adão e Eva, nossos "arquétipos fundamentais", são um só ser desde toda a eternidade, mas A Queda, a imensa e milenar ilusão de separatividade e tudo o mais que derivou-se dessa chaga universal, nos fez esquecer de nossa unidade original com o Amor Absoluto que nos Criou, esquecemos o que é viver neste Uno Eterno e sem conflitos, sem projeções, sem essas ilusões de separatividade que tanto nos aprisionam.

Eita, acabei me empolgando, desculpe rsrs, é que me enche de entusiasmo encontrar quem se aprofunde tanto assim em temas como esse ^^)