5 de março de 2014

Sobre as disposições éticas de um não-combatente.











A disposição em não combater já é em si mesmo uma forma de combate. A renúncia ao conflito é fruto da disposição pessoal em cultivar o domínio sobre si. Também uma maneira de auto preservar-se, eximir-se de contendas que apenas servem para alimentar ainda mais disputas e rancores mútuos.

Sabe-se que controlar as inconstâncias de nossas emoções não é tarefa fácil, reclama uma vontade pessoal absurda. Uma determinação racional em não desperdiçar tempo, energia e razão em questões infrutíferas. O combate está no ‘si mesmo’, na especial faculdade humana de escolher, e escolher utilizando uma disposição o mais racional possível.

Ora, não foram poucos os pensadores que se destacaram em defender essa tese. O escritor, ensaísta e poeta português José Saramago defende essa linha:

“Somos nós que nos afirmamos, por oposição ao comportamento dos animais, seres dotados de razão; por isso, não posso aceitar (e aí entra uma questão ética) que a razão seja usada contra a razão. Neste sentido, uma razão que não é conservadora da vida, uma razão que não defende a vida, uma razão que (pondo a coisa num terreno mais prático, mais lhano, mais imediato) não se orienta para dignificar a vida humana, para respeitá-la, muito simplesmente para alimentar o corpo, para defender da doença, para defender de tudo o que há de negativo e que nos cerca, e que desgraçadamente é também produto da razão, é uma razão de que se faz um mau uso. Se o homem é um ser racional e usa a razão contra si mesmo — um contra si mesmo representado pelos seus semelhantes —, então de que é que serve a razão?” (Carlos Reis, Diálogos com José Saramago, Lisboa, Caminho, 1998.)

Usar a razão contra seu semelhante é usar a razão contra si próprio, tendo em vista a identidade humana comum entre ambos. Assim, infere Kant: “Age sempre de tal modo que trates a Humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa do outro, como fim e não apenas como meio”. 


A razão em não combater em contendas é uma AUTODETERMINAÇÃO, uma exigência pessoal que o indivíduo se impõe em respeito a si e, logo, aos demais. É exercício de autonomia orientada pela ética, porque toma um princípio de conduta Universal. Diferente da moral pusilânime que exige a vitória de alguém em face de alguém. A moral movida pela disputa infere que o vencedor é o melhor e o mais preparado (destaca apenas um quando a dignidade é comum a ambos) tomando por critérios a imediatidade do resultado e a fugacidade do valor depositado neste.

Aquele que busca o combate no domínio sobre si, ao concentrar a atenção em transpor suas próprias limitações, age em favor de todos porque se impõe ao dever de harmonia. Descobre-se sujeito e não mero objeto das circunstâncias. Isso é fator revolucionário, se considerarmos que as pessoas, em sua larga maioria, optam por um viver autômato, limitado nas mesmas circunstâncias e situações que seus antepassados vivenciaram, dramas encerrados em condutas que se repetem ao longo de anos de existência.

Apenas para ilustrar, o que se diz logo acima, leia-se a consideração do jusfilósofo Miguel Reale a respeito da condicionalidade da conduta nos fatos desencadeados pelo cotidiano:

“O homem jamais se despreende do meio social e histórico, das circunstâncias que o envolvem no modo de agir. Delas participa e sobre elas reage: são forças do passado que atuam como processos e hábitos lentamente constituídos, como laços tradicionais e linguísticos, que a educação preserva e transmite: são forças do presente com seu peso histórico imediato; são forças do futuro que se projetam como idéias-força, antecipações e ‘programas de existência’ envolvendo dominadoramente a psique individual e coletiva.
Esse elemento, que cerca o homem e lhe impõe limites, que é de certa maneira negativo perante uma liberdade criadora sem peias, é o que chamamos fato. Não há conduta humana (e o ‘humano’ aqui é redundante) que não se desenvolva na condicionalidade de um complexo de fatos (...)” (Filosofia do direito, 19ª ed, Saraiva, p. 392.)

Quando o indivíduo descobre-se sujeito da própria ação, e da ação perpetrada com livre consciência, interioriza as normas com as quais resolve proceder, num fenômeno de autolegislação. Impõe sobre si os valores que elege com vistas a desenvolver-se e isto, certamente, influenciará o seu meio de atuação. O fim perseguido implica num aprimoramento individual, que convergirá para a harmonização do meio social.



O foco sobre si alcança os demais, direta ou indiretamente. Nesse aspecto, o foco sobre si alcança o bem comum a todos, erodindo a idéia do egoísmo. Valho-me das palavras do líder budista Daisaku Ikeda: “Seja como for, a grandiosa Revolução Humana de uma única pessoa irá um dia impulsionar a mudança total do destino de um país e, além disso, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade”.

Eis que anuncia Kafka: “Enfrentar-se a si próprio calmamente, sem precipitações, viver como se tem de viver, não andar à caça do próprio rabo como o cão”. Romper com os elos atávicos faz-se urgente. Os modelos evidenciados nas relações humanas (familiares, profissionais, institucionais, coletivos), tal como os temos vivido, têm apenas corroborado os problemas mais básicos de nossa existência.

O foco sobre si, não obstante pautar-se no eterno instante presente, propõe-se a efeitos prospectivos com resultados mais definidos e sólidos para si e para todos. Esse aspecto evidencia o compromisso constante com o desenvolvimento de si; rompe, portanto, a idéia do comodismo. Torno a atenção a outro ensinamento do líder budista: “Desistir de aprender é egoísmo. Este é um ditado que eu gosto muito. Quando acalentamos o desejo de aprender mais, nossas vidas estarão repletas de genuína vitalidade e brilho”. Aprender portanto, torna-nos jovens, revitalizados pelo eterno compromisso com a superação e o encantamento cultivado na curiosidade.

Nunca antes uma época foi tão marcada pelo afrouxamento das distâncias e pela elasticidade dos valores, tal como hoje se evidencia. Questões aparentemente pontuais e localizadas podem ser percebidas em suas verdadeiras dimensões. O mundo é complexo. Nossas subjetividades nos confundem. Atrelados ao universo das dissidências atávicas, comungando da ganância, mola propulsora de civilizações várias, estamos fadados a assistir à carnificina de nossa espécie.

O esforço em chegar à tona e ‘oxigenar’ nossas percepções nos torna lobos solitários melodiando na noite escura. Quantos de nós cantando sozinhos! A apatia é geral e abstrata. Fazer por repetição, falar por repetição, agir por repetição. A reprodução inquestionável dos comportamentos tem sustentado a riqueza e assegurado a miserabilidade. A maior estratégia dos grandes grupos econômicos, das organizações mundiais, da indústria midiática, e porque não incluir as lideranças religiosas, é alimentar as contendas humanas: deflagrar pessoas contra pessoas. Assentimos e continuamos a reproduzir.

Aceita-se, docilmente, que a satisfação é inerente ao objeto da disputa, transfere-se a atenção a um aspecto exterior a si. A sensação de incompletude é intensificada, porque ao objeto são atribuídas qualidades, sem as quais o sujeito reduzir-se-á a um estado de necessidade. E então, o indivíduo busca fora de si o suplemento que acredita necessitar. Introjetam-se os infortúnios do medo e da frustração e o desencadeamento da crueldade nas intenções dotadas de perfídia que só amarguram sofrimento.


A alegria está na jornada, em vivê-la com toda a intensidade, recordo-me de ter ouvido de um personagem num filme americano. O matemático e filósofo Blaise Pascal ensina que todo o nosso interesse reside na busca, não na conquista, na disputa das idéias, não em suas conclusões. Há prazer na construção. Uma vez se entenda ser algo acabado, então nossa atenção já disputa novo interesse, renasce, frutifica e o trabalho recomeça.

Nunca descansar. Até o ócio é mais prazeroso quando produtivo. Nossa incompletude não se deve a qualquer fator externo, senão a algo que, talvez, emane de nossa própria natureza. Ao compreender isso, o Mestre Sakyamuni transpõe o tempo e o espaço, “Cada um é senhor de si mesmo; deve depender de si próprio; deve, portanto, controlar-se a si próprio”.

A disposição do não-combatente inspira constância. Uma vez debilitada a razão, faz cair por terra anos dedicados no fiar da busca pela Iluminação.  É o que se depreende nas últimas linhas escritas pelo Sr. Sifu Raul Marcelo Oliveira,

“(...) não somos nada e nada temos que defender. Estamos fora da linha de combate, fomos anulados completamente por um trabalho de tipo espiritual (...)
Portanto e como conclusão aquele que não combate está se treinando na arte de silenciar e de não provar. Aquele que não combate ambiciona o mais profundo, o mais interno, o mais sublime. Porque os seus combates ocorrem nas esferas do pensamento e da vontade.”



Não se pode abrandar o propósito que se abraça voluntariamente. Dedicação é amor em movimento. Há brilho nos olhos. Há sorriso acolhedor. Há calor humano no encontro das mãos. Há solenidade no instante que traz o ensinamento. É a vida que flui em abundância e logo atinge quem tem sede. São disposições do espírito que não podem ser represadas, nem esmorecidas.

A manifestação do Sifu provocou reflexões, a seguir ordenadas e amadurecidas com algumas referências. Casando uma ideia e outra, eis a minha contribuição em respeito ao debate, sem pretender encerrar qualquer ponto. São remendos em prosa.






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