3 de abril de 2013

Contemplação e sensualidade no adágio de Mozart.





Desperta o timbre metálico do silêncio profundo. Crescente. Suavemente, nos acorda para a contemplação. Parece longínquo e é de uma tenacidade sutil. Como a voz feminina que convida o amado ao deleite sob o seio e à custa de afagos. É tão cúmplice e, ao mesmo tempo indiferente. Que mistérios estão assegurados nesse canto de sopro!


A sublimidade melodiosa dessa composição de Mozart nos remete à verdadeira adoração. Uma ode à alma humana que hodiernamente se liquefaz no deserto da realidade comum. Conduz num chamado suplicante e solitário a clarineta que lidera o concerto com solos flamejantes, cujo reconhecimento somente a alma faminta pode fazê-lo.


Sim, Wolfgang Amadeus Mozart era uma alma sedenta. Um gênio faminto por liberdade, ávido pela
vida e pelo amor. Suas composições agitaram a época em que viveu. Em nada são destituídas de espírito autêntico e sagaz. Impulsivo, orgulhoso... Quem poderia arrancar de um artista talentoso, pedaços ou nichos de sua personalidade apenas por considerá-los desvirtuosos? Há sempre o risco de perdermos o artista e dispersarmos a vocação.

Felizmente, os espíritos que eclodem, nos tempos alados, desde os mais remotos dias até os infindáveis que inda estão por vir, possuem uma força indelével que os empurra a seguir. Essa força intransferível que os instiga e os atira à frente da ignorância do seu tempo. Eu sinto e temo algo dessa força. Como não temer o que indistingue bem e mal? Como não hesitar o que está acima e avante das virtudes e é indiferente às cobranças teimosas dos vícios e das demências?


Voltando à composição, à qual me enamoro, o efeito daquela melodia solitária faz ressoar, nos demais instrumentos, uma comoção que se perfaz num fraternal acompanhamento. São compreensivos à oração da clarineta, a ponto de realizarem todos, mais à frente no adágio, um verdadeiro diálogo. O singular é revelado humano e a pluralidade, não menos humana, surge discretamente e se desenvolve até alcançar intensidade. O singular e o plural são cúmplices.


Que diálogo modesto pode traduzir uma riqueza tão inefável! Mozart, um marco na musicalidade erudita fala por suas obras. Escreve o canto dos sedentos, dos famintos por vida. Reacende as chamas da paixão e do conflito ao utilizar combinações de pausas e de sons de intensidade, dinâmica e timbres variados. Enaltece a experiência humana transformando-a num hiato entre a esperança consumida durante o desterro e a revelação catártica.



Eu permito às minhas fantasias alcançarem o tema. O
concerto para clarineta em lá maior, K 622, é uma canção perfeita para um encontro amoroso entre personagens fugidios e inquietos. A clarineta é a alma feminina do concerto: ela chama suave, faz promessas de entrega; é sutil na sua renúncia. O
acompanhamento é o ente masculino do envolvimento, é quem escuta e aguarda; ora receia, ora corresponde, é dualista; se envolve, porém, é dispersivo no seu modo de amar. A alma feminina é envolvente, insiste e entende que algo de si é capaz de erguê-lo e atraí-lo para o seu ciclo. Ele vai marcando
o tempo, palpitando melodias ao fundo, até render-se por completo.


De distante a vigoroso, toma a amada para si. Ele consente a melodia central e perde-se nela enquanto persegue linhas, pontos e formas. Todo o enlace é tensão e prazer. Ele permite que ela seja inteira, que cante sopros de vida. Ele é a sustentação para que ela
experiencie suas faculdades; ela, o acalanto onírico com que ele pode sublimar fantasias e desejos. Clarineta e orquestra. Entes feminino e masculino. Inquietos e fugidios, e melodiosamente envolvidos. 


Um comentário:

Antonio Reinaldo disse...

Profunda a comparação! Só uma alma imensamente poética pode assim imaginar; assim viver... assim amar!

Parabéns! Encantei-me.