Desperta o timbre metálico do silêncio profundo. Crescente. Suavemente, nos acorda para a contemplação. Parece longínquo e é de uma tenacidade sutil. Como a voz feminina que convida o amado ao deleite sob o seio e à custa de afagos. É tão cúmplice e, ao mesmo tempo indiferente. Que mistérios estão assegurados nesse canto de sopro!
A sublimidade
melodiosa dessa composição de Mozart nos remete à verdadeira adoração. Uma ode
à alma humana que hodiernamente se liquefaz no deserto da realidade comum. Conduz num chamado suplicante e solitário a clarineta que lidera o concerto com solos
flamejantes, cujo reconhecimento somente a alma faminta pode fazê-lo.
Sim, Wolfgang
Amadeus Mozart era uma alma sedenta. Um gênio faminto por liberdade, ávido pela
vida e pelo amor. Suas composições agitaram a época em que viveu. Em nada são destituídas de espírito autêntico e sagaz. Impulsivo, orgulhoso... Quem poderia arrancar de um artista talentoso, pedaços ou nichos de sua personalidade apenas por considerá-los desvirtuosos? Há sempre o risco de perdermos o artista e dispersarmos a vocação.
vida e pelo amor. Suas composições agitaram a época em que viveu. Em nada são destituídas de espírito autêntico e sagaz. Impulsivo, orgulhoso... Quem poderia arrancar de um artista talentoso, pedaços ou nichos de sua personalidade apenas por considerá-los desvirtuosos? Há sempre o risco de perdermos o artista e dispersarmos a vocação.
Voltando à
composição, à qual me enamoro, o efeito daquela melodia solitária faz ressoar,
nos demais instrumentos, uma comoção que se perfaz num fraternal acompanhamento.
São compreensivos à oração da clarineta, a ponto de realizarem todos, mais à
frente no adágio, um verdadeiro diálogo. O singular é revelado humano e a
pluralidade, não menos humana, surge discretamente e se desenvolve até alcançar
intensidade. O singular e o plural são cúmplices.
Que diálogo
modesto pode traduzir uma riqueza tão inefável! Mozart, um marco na
musicalidade erudita fala por suas obras. Escreve o canto dos sedentos, dos
famintos por vida. Reacende as chamas da paixão e do conflito ao utilizar combinações
de pausas e de sons de intensidade, dinâmica e timbres variados. Enaltece a
experiência humana transformando-a num hiato entre a esperança consumida durante o desterro e a revelação catártica.
Eu permito às
minhas fantasias alcançarem o tema. O
concerto para clarineta em lá maior, K
622, é uma canção perfeita para um encontro amoroso entre personagens fugidios
e inquietos. A clarineta é a alma feminina do concerto: ela chama suave, faz
promessas de entrega; é sutil na sua renúncia. O
acompanhamento é o ente masculino do envolvimento, é quem escuta e aguarda; ora receia, ora corresponde, é dualista; se envolve, porém, é dispersivo no seu modo de amar. A alma feminina é envolvente, insiste e entende que algo de si é capaz de erguê-lo e atraí-lo para o seu ciclo. Ele vai marcando
o tempo, palpitando melodias ao
fundo, até render-se por completo.
acompanhamento é o ente masculino do envolvimento, é quem escuta e aguarda; ora receia, ora corresponde, é dualista; se envolve, porém, é dispersivo no seu modo de amar. A alma feminina é envolvente, insiste e entende que algo de si é capaz de erguê-lo e atraí-lo para o seu ciclo. Ele vai marcando
experiencie suas faculdades; ela, o acalanto onírico com que ele pode sublimar fantasias e desejos. Clarineta e orquestra. Entes feminino e masculino. Inquietos e fugidios, e melodiosamente envolvidos.
Um comentário:
Profunda a comparação! Só uma alma imensamente poética pode assim imaginar; assim viver... assim amar!
Parabéns! Encantei-me.
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