25 de março de 2013

Reflexões matutinas.




Segunda-feira. As pessoas despertam para o trabalho. Crianças se erguem, ainda sonolentas do seu leito de repouso. Começam as rotinas humanas impulsionadas pelos raios que anunciam mais um recomeço no ciclo diário do tempo.

As mães, com diligência religiosa, alimentam seus filhos. E cobram dos pequenos difusas responsabilidades:
“Arrumar a lancheira!”;
“Rápido! Olha o horário!”;
“Não desperdice comida!”;
“Já conferiu a mochila?”...

Mulheres que oferecem seus pequenos sacrifícios à vida que reclama movimento. Elas renunciam um pouco de si todos os dias. Conduzem seus caminhos como as águas abastadas. Levam consigo algumas vidas. Deixam para trás e no fundo do leito fardos que já não acompanham a direção fluida das suas correntes.

O tempo não espera. Abraça, envolve. Por aqui, tudo é luz; tudo é amplo; tudo é quente; tudo transpira. O sol nos queima a pele. Fechamos os olhos por não suportarmos o seu brilho. Somos como as mariposas vibrando as asas solitárias, enquanto a luz nos adverte, “É tarde!”. Então, agitamos mais e rodopiamos até caírmos de cansaço pela energia despendida.

As pessoas acolhem e são acolhidas. Precisamos do outro, inclusive da sua natural dissidência. A adversidade encontrada no outro, nos revela muito do que há em nós. Então, revelamos as arestas do medo, das ansiedades, de outras fragilidades... Descobrimo-nos em novas reflexões. Ao redor de nós, tecemos um casulo com que nos resguardamos do outro. Ao construir reservas, disciplinamos o mundo.

Reconhecemo-nos pelos olhos, essas pequenas janelas que trazemos diante da fronte. Com elas, espelhamos o mundo. Sabe-se muito de uma pessoa pela tenacidade com que seus olhos podem fixar-se, sem que se dispersem em fuga quando flagrados pelo alvo.  

Hoje, duas vozes sertanistas acordaram o comércio jacuipense numa cantoria de amor desinteressada. Os timbres eram evocados a poucos metros de mim e se enlaçavam harmonicamente no curso do ar para fecundar meus ouvidos com aboios melodiosos. Eram dois alegres populares, rememorando sua juventude em canções de um brilho nostálgico e em pequenos goles de cerveja, que sorviam fraternos.

Nesses momentos, o ser humano marca o tempo com as cores da sua presença. A maneira como enlaçam as dores a retalhos de consolo ou como conseguem sublimar as necessidades com o calor da esperança, salienta a singularidade com que somos partícipes da vida.

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