Foi-se, finalmente, o verão, não sem antes fazer algumas grosserias: trovejou, relampejou, choveu, inundou. Não queria ir embora. Compreendo. Queria ficar para ver e namorar o outono, que é muito mais bonito que ele. Verão quarentão: recusava-se a aceitar os sinais da passagem do tempo. Não queria dizer adeus. Gostaria de ficar. A vida é tão boa! Mas o tempo é implacável. O Sol lhe disse que a hora do seu adeus havia chegado. Foi se inclinando no céu, suas viagens cada vez mais curtas, as noites mais longas, o crepúsculo chegando mais cedo, as manhãs chegando mais tarde.
O vento antes convidava a que se tirasse a camisa. Agora
ele causa arrepios e chama os agasalhos das gavetas onde dormiam. O céu fica mais azul. Deve ter sido numa tarde de outono que os Beatles compuseram aquela balada que canta “ (...) because the Sky is blue it makes me cry...”. E o verde das plantas fica mais verde. No verão, o excesso de luz ofusca as cores. No outono, a luz fica mais mansa e as cores desabrocham como flores. O verão é inquieto. Tudo nele convida a sair e a agir. O outono é tranqüilo, introspectivo, convida ao recolhimento e à meditação. É um convite ao pensamento.
Gosto especialmente das suas tardes. O verão é estação do meio-dia. O outono vive mais ao sol que se põe. E como são belos os dois, outono e tardes. Há uma pitada de tristeza misturada no ar. “O que é bonito enche os olhos de lágrimas”, diz a Adélia [Prado]. Os dois se parecem porque os dois estão cheios de adeus.
A tarde
... é este sossego do céu
com suas nuvens paralelas
e uma última cor penetrando nas árvores
até os pássaros.
É esta curva dos pombos, rentes aos telhados,
este cantar de rolas, muito longe;
e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,
ainda sem luz... (Cecília Meireles)
Na cidade onde eu vivi, no interior de Minas, ao crepúsculo se tocava a Ave-Maria, e era como se toda a natureza parasse e rezasse. Eu gostava de ficar olhando para as árvores: havia uma imobilidade absoluta no
ar. Nem um único tremor perturbava a tranqüilidade pensativa das folhas. E as nuvens ao poente se coloriam de verde-claro, passando pelos amarelos, laranjas e vermelhos, até o roxo, que se preparava para desaparecer na escuridão. Tudo belo. Tudo triste. E pensamos pensamentos diferentes daqueles de durante o dia. Para Wordsworth, “as nuvens que se juntam ao redor do sol que se põe ganham seu colorido triste de olhos que têm atentamente observado a mortalidade dos homens”.
ar. Nem um único tremor perturbava a tranqüilidade pensativa das folhas. E as nuvens ao poente se coloriam de verde-claro, passando pelos amarelos, laranjas e vermelhos, até o roxo, que se preparava para desaparecer na escuridão. Tudo belo. Tudo triste. E pensamos pensamentos diferentes daqueles de durante o dia. Para Wordsworth, “as nuvens que se juntam ao redor do sol que se põe ganham seu colorido triste de olhos que têm atentamente observado a mortalidade dos homens”.
O crepúsculo e o outono nos fazem retornar à nossa verdade. Dizem o que somos. Metáforas de nós mesmos, eles nos fazem lembrar que somos seres crepusculares, outonais. Também somos belos e tristes... Como o verão quarentão, também nós não queremos partir... Paul Bouget nos diz:
Quando, ao sol que se põe, os rios ficam rosados
e um leve tremor percorre os campos de trigo,
parece das coisas surgir uma súplica de felicidade
que sobe até o coração perturbado.
Uma súplica de degustar o encanto de se estar no mundo
enquanto se é jovem e a noite é bela.
Pois nós vamos,
como se vai esta onda:
Ela, para o mar,
Nós, para a sepultura.
Quem quer que pare para ouvir as vozes do outono e da tarde perceberá que, de dentro da sua beleza, nos falam a nossa vida e a nossa morte. Nada mórbido. Só podem viver bem aqueles que aprendem a sabedoria que a morte ensina.
Foi assim que o professor de literatura, no filme Sociedade dos poetas mortos, iniciou o aprendizado dos seus alunos. Vocês se lembram? Levou-os até uma fotografia onde se encontravam, imobilizadas sobre o papel, pessoas. Agora todas estavam mortas. Também nós, um dia. A lição da poesia é que é preciso contemplar o crepúsculo no horizonte para sentir a beleza incomparável do momento. Cada momento é único.
Não há tempo para brincadeiras. Carpe diem: colha o dia, como algo que nunca mais se repetirá, como quem colhe um crepúsculo, “antes que se quebre a corrente de prata, e se despedace a taça de ouro...” (Eclesiastes 12.6) Beba cada momento até as últimas gotas. É preciso olhar para o abismo face a face, para compreender que o outono já chegou e que a tarde já começou. Cada momento é crepuscular. Cada momento é outonal. Sua beleza anuncia seu iminenteQuando o sol está a pino essas idéias não nos perturbam. Tudo parece estar bem. Há muito tempo ainda. As rotinas do trabalho ocultam a nossa verdade. Mas elas não podem impedir que a tarde chegue, com suas cores de adeus, nem que o outono chegue, anunciando a proximidade do inverno. E eles nos forçam a ter pensamentos diferentes, pensamentos de solidão. São mestres silenciosos.
Se prestarmos atenção e ouvirmos o que nos dizem, ficaremos sábios. Porque sabedoria é isto: contemplar o abismo sem ser destruído por ele. Nas palavras de Rilke, “conter a morte, a morte inteira, docemente, sem se tornar amargo".
ALVES, Rubem. As cores do crepúsculo: a estética do envelhecer. Campinas: São Paulo, Papirus, 2001, p. 55 a 58. cap. “O outono”.







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