No fundo, ninguém espera pela perda. Perder, fenecer, morrer são fatos diários da vida de todos, porém, as pessoas não são educadas, preparadas, para estas ocorrências. Agitadas que somos, evitamos observar nossas pequenas e contínuas mortes diárias. Utilizamos artifícios, saltamos para fora de nós mesmos, em tudo evitamos o vazio do nosso silêncio quando a dor ocupa o centro da nossa sensibilidade.
Fazer-se calar é trabalho para poucos. Enquanto não entorpecemos o espírito com miudezas de toda a sorte, falamos insensata e incessantemente. Com a voz, o espírito se esvai; a imponência se dissipa, e o que resta, torna-se estéril.
Eu procurei entender as correntezas residentes em outras enseadas. Pus-me à margem para contemplá-las. Sempre tão corredias, de movimentos tão rápidos e escorregadios. Embora minha presença ali fosse insignificante, as minhas tardes eram cercadas de cores e aromas.
O brilho dos reflexos coloridos que mesclavam e desaguavam naquela porção de mar produziam sentimentos de luxúria e encantamento. A perdição de estar absorta em águas estranhas às minhas, com movimentos ondulares que me envolviam com a maresia, era algo no qual procurava deter-me, sem resistência.
Ou poderia ser o efeito da luz crepuscular repercutida naquela superfície inquieta. Na verdade, sempre soube da efemeridade do meu tempo por aquelas areias. Sempre entendi que os portos são breves passagens, geradores de um tempo de saudades e de esperanças estendidas em varais amigos. Enquanto eu estive ali, eu me deixei ser vencida.
E não importava mais o silêncio com que me conduzia, mas o encontro com que pelo silêncio me permitia conduzir. E os meus olhos atinavam em fuga para alcançar aquelas ondulações sempre apressadas, sem entender o porquê do meu desprendimento.
Cheguei a banhar-me naquelas águas ora luminosas, ora negrumentas e turvas. A qual deus meu atrevimento afetaria? Eu simplesmente nunca me importei com o que pensam os deuses... A sorte de quem assim age é aprender a estar só e consigo, é construir um sistema particular, numa cadeia universal. O revés é rijo, porém.
Atar as ações e as condutas ao agir consciente e reuni-las a algumas pontes éticas da vida social consiste num senhor desafio. Há uma impressão de que os deuses nos dão as costas quando optamos por fazer calar o seu mandamus. Esta sensação, velha conhecida, já fez em mim morada cativa.
Mas aquelas águas correntes ocupam-se em um sentido, apenas. Buscam desaguar-se para submergir e expandir-se, até que se dissipem no oceano adentro. Enquanto eu, ao ausentar-me delas, desdobrei-me em múltiplas inconstâncias e em assentos místicos onde repouso um pulsar desdenhado.
Despedi-me daquelas águas. O desprendimento de agora eu nomeio aceitação – aceito que sou filha do fogo e o meu Ser é chama, que minha morada é a superfície terrena e que alimento-me de tocos e de ventos que trazem uivos vindos de toda parte.
Vez ou outra, meu olhar, de um animus teimoso, recorda as ondulações de uma correnteza tão longínqua quanto os sonhos...


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Um comentário:
Confesso, aos poucos me permito sentir e manifestar um profundo e cardíaco encantamento por estas sagradas linhas que sua bela alma tece...
Mesmo também rebelde aos seus desígnios, em rápida trégua, agradeço aos deuses esta crescente alegria incontida em conhecê-la...
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