9 de janeiro de 2013

As pessoas ainda permanecem.







As pessoas têm estado reticentes com o mundo de facilidades a um clique. E não é pra menos. O universo digital assusta, porque torna tudo mais prático e mais efêmero. Imagens e arquivos podem ser descartados, sem se tornar um estorvo, sem que nos preocupemos com o resultado do descarte.





Tornar tudo efêmero, porém, é algo preocupante. As expressões, os meios de relacionar-se com o outro e as tecnologias têm hoje uma forma de estar no mundo que é efêmera, volátil. Como nos modismos: chega de repente, vivencia um clímax e depois não se fala mais disso. Quando algo melhor e mais interessante vem à tona, parece que todo o resto merece ser esquecido.


Os objetos de consumo, por exemplo, parecem ter sido criados para serem descartados. Basta que se compare os valores das peças e do serviço de conserto com o preço do objeto novo comprado na loja. No entanto, contrariando a conveniência, sempre haverá algo que permanece e fica.


O modo de relacionar-se pode mudar, mas a vida permanece. As pessoas permanecem. Pessoas não podem ser pensadas como objetos, cujo descarte advém do desuso ou do desinteresse.


É preciso refletir para não confundir o jogo. Se eu me comunico por meio de uma tecnologia hábil utilizando uma máquina, devo entender que o outro comunicante é também uma pessoa que, assim como eu, utiliza-se do mesmo recurso. A máquina e a tecnologia são os meios dos quais eu e o outro se utilizam para realizar o encontro e a comunicação.


O fim não sou eu, nem o outro, nem a tecnologia utilizada. O fim é o encontro que se perfaz na comunicação. Eu sou uma das extremidades nesse processo. O outro é a outra extremidade. Vale o que acontece no meio entre nós e, para isso, utilizamos do suporte que é a tecnologia digital.


Dessa forma, uma ofensa continua sendo uma ofensa, um afronta continua sendo uma afronta, um incômodo será percebido sempre como incômodo. Não é porque as pessoas estão aparentemente afastadas que uma ofensa se tornou menos doída e mais fácil de ser esquecida. Pensar assim é um absurdo.


Quantas atitudes são tomadas por pessoas que se sentem encorajadas quando estão diante de uma máquina e com ela podem habilmente expressar suas razões. Desprezam o fato de que alguém poderá ler suas imposturas. E igualmente desprezam o fato de gerarem no alvo um direito muito maior e mais legítimo que é o ‘direito de resposta’. Sob aquele prisma, afrontar alguém torna-se fácil, devido a uma particular covardia.


É bom estar consciente da liberdade pessoal de expressar-se e ainda melhor entender que essa liberdade não se encerra apenas consigo. A liberdade proporciona acesso geral, a todos, indistintamente e em igual medida.


A liberdade não é uma ideia que se evoca apenas para sustentar-se; com a qual alguém possa alimentar suas pendências amorosas; com a qual possa entender que o seu uso seja um expediente adequado para sanar o medo de enfrentar situações reais, com pessoas presentes.


 Pensar que poderá dizer o que quiser e não terá uma resposta devida, consiste numa postura imbecil. As pessoas continuam existindo e permanecem, apesar de sentir-se falsamente sozinho quando está diante da tecnologia utilizada.


Haverá alguém apto a responder e este encontrará formas de expressar-se.  A não ser que a abstenção do alvo seja ainda melhor defesa. Não estamos sozinhos de fato. Somos uma comunidade digital e o que deixamos nela registrado, permanece e permite fluir seus efeitos.





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