As pessoas têm estado reticentes com o mundo de facilidades a um clique. E não é pra menos. O universo digital assusta, porque torna tudo mais prático e mais efêmero. Imagens e arquivos podem ser descartados, sem se tornar um estorvo, sem que nos preocupemos com o resultado do descarte.
Tornar tudo efêmero, porém, é
algo preocupante. As expressões, os meios de relacionar-se com o outro e as
tecnologias têm hoje uma forma de estar no mundo que é efêmera, volátil. Como nos
modismos: chega de repente, vivencia um clímax e depois não se fala mais disso.
Quando algo melhor e mais interessante vem à tona, parece que todo o resto
merece ser esquecido.
Os objetos de consumo, por
exemplo, parecem ter sido criados para serem descartados. Basta que se compare
os valores das peças e do serviço de conserto com o preço do objeto novo
comprado na loja. No entanto, contrariando a conveniência, sempre haverá algo
que permanece e fica.
O modo de relacionar-se pode
mudar, mas a vida permanece. As pessoas permanecem. Pessoas não podem ser pensadas
como objetos, cujo descarte advém do desuso ou do desinteresse.
É preciso refletir para não
confundir o jogo. Se eu me comunico por meio de uma tecnologia hábil utilizando
uma máquina, devo entender que o outro comunicante é também uma pessoa que,
assim como eu, utiliza-se do mesmo recurso. A máquina e a tecnologia são os
meios dos quais eu e o outro se utilizam para realizar o encontro e a
comunicação.
O fim não sou eu, nem o outro,
nem a tecnologia utilizada. O fim é o encontro que se perfaz na comunicação. Eu
sou uma das extremidades nesse processo. O outro é a outra extremidade. Vale o
que acontece no meio entre nós e, para isso, utilizamos do suporte que é a
tecnologia digital.
Dessa forma, uma ofensa continua
sendo uma ofensa, um afronta continua sendo uma afronta, um incômodo será
percebido sempre como incômodo. Não é porque as pessoas estão aparentemente
afastadas que uma ofensa se tornou menos doída e mais fácil de ser esquecida.
Pensar assim é um absurdo.
Quantas atitudes são tomadas por
pessoas que se sentem encorajadas quando estão diante de uma máquina e com ela
podem habilmente expressar suas razões. Desprezam o fato de que alguém poderá
ler suas imposturas. E igualmente desprezam o fato de gerarem no alvo um
direito muito maior e mais legítimo que é o ‘direito de resposta’. Sob aquele
prisma, afrontar alguém torna-se fácil, devido a uma particular covardia.
É bom estar consciente da
liberdade pessoal de expressar-se e ainda melhor entender que essa liberdade
não se encerra apenas consigo. A liberdade proporciona acesso geral, a todos,
indistintamente e em igual medida.
A liberdade não é uma ideia que
se evoca apenas para sustentar-se; com a qual alguém possa alimentar suas pendências
amorosas; com a qual possa entender que o seu uso seja um expediente adequado
para sanar o medo de enfrentar situações reais, com pessoas presentes.
Pensar que poderá dizer o que quiser e não
terá uma resposta devida, consiste numa postura imbecil. As pessoas continuam
existindo e permanecem, apesar de sentir-se falsamente sozinho quando está
diante da tecnologia utilizada.
Haverá alguém apto a responder e
este encontrará formas de expressar-se. A não ser que a abstenção do alvo seja ainda
melhor defesa. Não estamos sozinhos de fato. Somos uma comunidade digital e o
que deixamos nela registrado, permanece e permite fluir seus efeitos.



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