9 de novembro de 2012

Melancolia, amiga dos poetas.


A vida nos impõe algumas provas. Oferta-nos algumas surpresas. Pergunto-me, tantas vezes, sobre as direções que nos são apontadas. Se as portas que se abrem diante de nós são doces ou acres. Importa apenas escolher e seguir em frente com o olhar da expectativa serena em manter-se de pé e lúcido.

Nos momentos de reflexão, sinto sempre aquela antiga companheira. Aquela que me faz sentir o coração contrito e silente, com um leve queimor nos olhos e a garganta entorpecida. Como é angustiante pensar com todos os revezes a que me dou o direito.


Melancolia, velha amiga. O teu braço é um manto surrado e quente. As tuas mãos caridosas são como um véu de seda pousando na minha fronte triste. Aquela que me acolhe com um tapinha nas costas, a dizer sempre que as coisas são como são.

E decerto já me convenci. De fato, quanto mais explicações colhemos, mais atabalhoados nos tornamos apanhando migalhas e restos deixados pelos que se fartam durante a jornada. E no mundo inteiro é assim. Há aqueles que pedem, e só pedem. Há aqueles que tomam, sem pedir. Há os que correm e se agitam em chegar primeiro, para reivindicar o melhor pedaço.

E há os que vão devagar. Seguem assim porque se permitem observar o jogo, uma extensa e delicada trama. Assim, sem pressa, tem a oportunidade de assistir como as peças se movimentam e com que ritmo. Devagar aprendem as regras. Encontram tempo para analisá-las. Rebelam-se contra muitas delas, rejeitando-as. Outras tantas, reservam-nas consigo.

Para os que seguem devagar, qualquer colo é um imenso abrigo. Todo rosto tem o esboço de um sorriso. É algo incrível encontrar os que domam a própria face - talento estranho, que alguns cultivam na vã tentativa de não se perderem de si mesmos. Quem vai devagar, vai leve. Segue com a condição privilegiada de quem vê por último. Está atento aos que anseiam por realizações e fortunas.

Assim, os que vão devagar observam ruídos e cores que muitos não tem tempo, nem interesse para ouvir e ver. Eventualmente, a velha amiga encontra em nós morada gentil para consolar-nos das pequenas frustrações que reunimos durante o caminho. A ela nos voltamos com reverência. 



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